A Parábola do Rico e Lázaro, o que significa?

 

Esta sem dúvida é uma das parábolas mais controvérsias de Jesus. Muitos dizem que Jesus está falando do inferno e do céu, do tormente eterno. Mas tais pessoas isolam essa parábola, não harmonizando ela com o restante das escrituras, ficando assim uma parábola fora de todo o contexto das escrituras sagradas, afinal de contas isso não é um ensinamento bíblico.

Como sabemos disso?

Os termos das línguas originais (hebr.: né·fesh grego.: psy·khé), segundo usados nas Escrituras, mostram que a “alma” é a pessoa, o animal ou a vida que a pessoa ou o animal usufrui.
As conotações que a palavra portuguesa “alma” geralmente transmite à mente da maioria das pessoas não estão de acordo com o significado das palavras hebraica e grega usadas pelos inspirados escritores bíblicos. Este fato tem obtido continuamente um reconhecimento mais amplo. Lá em 1897, no Journal of Biblical Literature (Revista de Literatura Bíblica; Vol. XVI, p. 30), o professor C. A. Briggs, em resultado de pormenorizada análise do uso de né·fesh, comentou: “Alma (soul), no seu uso em inglês, no tempo atual, transmite usualmente um significado muito diferente de נפש [né·fesh] em hebraico, e é fácil que o leitor incauto a interprete erroneamente.”
Mais recentemente, quando a Sociedade Publicadora Judaica da América lançou uma nova tradução da Torá, ou dos primeiros cinco livros da Bíblia, o editor-chefe, H. M. Orlinsky, da Faculdade União Hebraica, declarou que a palavra “alma” tinha sido virtualmente eliminada desta tradução porque “a palavra hebraica em questão aqui é ‘Nefesh’”. Acrescentou: “Outros tradutores a têm interpretado como significando ‘alma’; o que é inteiramente inexato. A Bíblia não diz que temos uma alma. ‘Nefesh’ é a própria pessoa, sua necessidade de alimento, o próprio sangue nas suas veias, seu ser.” — The New York Times, 12 de outubro de 1962.

Qual é a origem do ensino de que a alma humana é invisível e imortal?
A dificuldade reside em que os significados popularmente atribuídos à palavra portuguesa “alma” provêm primariamente, não das Escrituras Hebraicas ou das Gregas Cristãs, mas da antiga filosofia grega, na realidade, do pensamento religioso pagão. Platão, o filósofo grego, por exemplo, cita Sócrates como dizendo: “A alma . . . se ela partir pura, não arrastando consigo nada do corpo, . . . parte para o que é como ela mesma, para o invisível, divino, imortal e sábio, e quando chega ali, ela é feliz, liberta do erro, e da tolice, e do medo . . . e de todos os outros males humanos, e . . . vive em verdade por todo o porvir com os deuses.” — Phaedo (Fédon), 80, D, E; 81, A.
Em contraste direto com o ensino grego sobre a psy·khé (alma) como imaterial, intangível, invisível e imortal, as Escrituras mostram que tanto psy·khé como né·fesh, conforme usadas com referência a criaturas terrestres, referem-se àquilo que é material, tangível, visível e mortal.
A New Catholic Encyclopedia (Nova Enciclopédia Católica) diz: “Nepes [né·fesh] é um termo de muito maior extensão do que nossa ‘alma’, significando vida (Êx 21.23; Dt 19.21) e suas várias manifestações vitais: respiração (Gn 35.18; Jó 41.13[21] ), sangue [Gn 9.4; Dt 12.23; Sl 140(141).8 ], desejo (2 Sm 3.21; Pr 23.2). A alma no A[ntigo] T[estamento] significa, não uma parte do homem, mas o homem inteiro — o homem como ser vivente. Similarmente, no N[ovo] T[estamento] significa vida humana: a vida duma entidade individual, consciente (Mt 2.20; 6.25; Lu 12.22-23; 14.26; Jo 10.11, 15, 17; 13.37).” — 1967, Vol. XIII, p. 467.
A tradução católica romana, The New American Bible (A Nova Bíblia Americana), em seu “Glossário de Termos de Teologia Bíblica” (pp. 27, 28), diz: “No Novo Testamento, ‘salvar a alma’ (Mr 8:35) não significa salvar alguma parte ‘espiritual’ do homem, em contraste com o seu ‘corpo’ (no sentido platônico), mas a inteira pessoa, com ênfase no fato de que a pessoa está viva, desejando, amando e querendo, etc., em adição a ser concreta e física.” — Edição publicada por P. J. Kenedy & Sons, Nova Iorque, 1970.
Né·fesh evidentemente provém duma raiz que significa “respirar”, e, num sentido literal, né·fesh poderia ser traduzido como “alguém que respira”. O Lexicon in Veteris Testamenti Libros (Léxico dos Livros do Velho Testamento; Leiden, 1958, p. 627), de Koehler e Baumgartner, a define como segue: “a substância respiradora, que torna o homem e o animal seres viventes (Gn 1,20) , a alma (estritamente distinta da noção grega da alma), cuja sede é o sangue (Gn 9,4ss Lv 17,11 Dt 12,23) : (249 X) . . . alma = ser vivente, indivíduo, pessoa.”
Quanto à palavra grega psy·khé, os léxicos grego-inglês fornecem definições tais como “vida” e “o eu consciente ou personalidade como centro de emoções, desejos e afeições”, “um ser vivente”, e mostram que até mesmo em obras gregas não-bíblicas o termo era usado “para animais”. Naturalmente, essas fontes, que lidam primariamente com os escritos gregos clássicos, incluem todos os significados que os filósofos gregos, pagãos, davam à palavra, inclusive o de “espírito que partiu”, “a alma imaterial e imortal”, “o espírito do universo” e “o princípio imaterial do movimento e da vida”. Evidentemente, porque alguns dos filósofos pagãos ensinavam que a alma emergia do corpo na morte, o termo psy·khé também era aplicado à “borboleta ou mariposa”, criaturas estas que passam por uma metamorfose, transformando-se de lagarta em criatura alada. — Greek-English Lexicon (Léxico Grego-Inglês) de Liddell e Scott, revisado por H. Jones, 1968, pp. 2026, 2027; New Greek and English Lexicon (Novo Léxico Grego e Inglês) de Donnegan, 1836, p. 1404.
Os antigos escritores gregos aplicavam psy·khé de vários modos, e não eram coerentes, suas filosofias pessoais e religiosas influenciando seu uso do termo. Sobre Platão, a cuja filosofia podem ser atribuídas as idéias comuns sobre a palavra portuguesa “alma” (como geralmente se reconhece), declara-se: “Ao passo que às vezes ele fala de uma das [supostas] três partes da alma, a ‘inteligível’, como necessariamente imortal, ao passo que as outras duas partes são mortais, ele também fala como se houvesse duas almas em um só corpo, uma imortal e divina, e a outra mortal.” — The Evangelical Quarterly (Publicação Trimestral Evangélica), Londres, 1931, Vol. III, p. 121: “Idéias Sobre a Teoria Tripartida da Natureza Humana”, de A. McCaig.

Agora que sabemos que isso não é um ensino bíblico vamos entender essa parábola. 

O rico e Lázaro (Lu 16:19-31).

O cenário, em Lucas 16:14, 15, mostra que os fariseus amantes do dinheiro estavam escutando e escarnecendo. Mas Jesus lhes disse: “Vós sois os que vos declarais justos perante os homens, mas Deus conhece os vossos corações; porque aquilo que é altivo entre os homens é uma coisa repugnante à vista de Deus.”
A roupa “de púrpura e de linho” que o rico usava comparava-se à vestimenta usada apenas por príncipes, nobres e sacerdotes. (Est 8:15; Gên 41:42; Êx 28:4, 5) Era caríssima!

O Hades, para onde se diz que o homem rico foi, é a sepultura comum da humanidade morta. Que não se pode concluir dessa parábola que o próprio Hades é um lugar de fogo ardente é tornado claro em Apocalipse 20:14, onde a morte e o Hades são descritos como sendo lançados no “lago de fogo”. A morte do rico e estar ele no Hades deve, portanto, ser figurativo, sendo que morte figurativa é mencionada em outras partes das Escrituras. (Lu 9:60; Col 2:13; 1Ti 5:6)

Assim, ele sofreu o tormento ardente enquanto figurativamente estava morto, mas, na realidade, vivo qual humano. O fogo é usado na Palavra de Deus para descrever Suas mensagens de julgamento ardente (Je 5:14; 23:29), e diz-se que a obra dos profetas de Deus de declarar Seus julgamentos ‘atormenta’ os que se opõem a Deus e a seus servos. — Apocalipse 11:7, 10.
Lázaro é uma forma grecizada do nome hebraico Eleazar, que significa “Deus Ajudou”. Os cães que lambiam as suas feridas aparentemente eram do tipo que perambulavam pelas ruas e se alimentavam de carniça, sendo considerados impuros. Estar Lázaro na posição junto ao seio de Abraão indica que ele estava numa posição de favor (veja Jo 1:18), sendo que esta figura de linguagem se deriva da prática de se reclinar às refeições de tal modo que a pessoa podia recostar-se no peito de um amigo. — Jo 13:23-25.

JESUS está falando a seus discípulos sobre o uso correto das riquezas materiais, explicando que não podemos ser escravos delas e ao mesmo tempo ser escravos de Deus. Os fariseus também estão escutando isso, e começam a zombar de Jesus porque são amantes do dinheiro. De modo que ele lhes diz: “Vós sois os que vos declarais justos perante os homens, mas Deus conhece os vossos corações; porque aquilo que é altivo entre os homens é uma coisa repugnante à vista de Deus.”
Chegou o tempo para se inverter a situação daqueles que são ricos em bens do mundo, em poder político, e em controle e influência religiosos. Eles hão de ser rebaixados. No entanto, as pessoas que reconhecem sua necessidade espiritual hão de ser enaltecidas. Jesus indica essa mudança ao prosseguir dizendo aos fariseus:
“A Lei e os Profetas existiram até João [o Batizador]. Dali em diante, o reino de Deus está sendo declarado como boas novas, e toda sorte de pessoa avança impetuosamente em direção dele. Deveras, mais fácil é passarem céu e terra do que passar sem cumprimento uma só partícula duma letra da Lei.”
Os escribas e os fariseus orgulham-se de sua professa aderência à Lei de Moisés. Lembre-se de que, quando Jesus milagrosamente deu visão a certo homem em Jerusalém, eles se gabaram: “Nós somos discípulos de Moisés. Sabemos que Deus falou a Moisés.” Mas agora a Lei de Moisés já cumpriu seu objetivo intencionado de conduzir os humildes ao Rei designado por Deus, Jesus Cristo. De modo que, com o começo do ministério de João, toda sorte de pessoa, especialmente os humildes e os pobres, esforçam-se para se tornar súditos do Reino de Deus.
Visto que a Lei mosaica está então sendo cumprida, será eliminada a obrigação de guardá-la. (Efésios 2:15) A Lei permite o divórcio por vários motivos, mas Jesus diz agora: “Todo aquele que se divorciar de sua esposa e se casar com outra, comete adultério, e quem se casar com uma mulher divorciada do marido, comete adultério.” Como essas declarações devem irritar os fariseus, especialmente visto que permitem o divórcio à base de diversos motivos!
Continuando com suas observações aos fariseus, Jesus conta uma ilustração sobre dois homens, cuja condição social ou situação por fim mudou dramaticamente. Consegue discernir quem são representados por esses homens e o que significa a inversão da sua respectiva situação?
“Mas, certo homem era rico”, explica Jesus, “e costumava cobrir-se de púrpura e de linho, regalando-se de dia a dia com magnificência. Mas, certo mendigo, de nome Lázaro, costumava ser colocado junto ao seu portão, estando cheio de úlceras e desejoso de saciar-se com as coisas que caíam da mesa do rico. Sim, também os cães vinham e lambiam as suas úlceras.”
Jesus usa aqui o rico para representar os líderes religiosos judaicos, incluindo não só os fariseus e os escribas, mas também os saduceus e os principais sacerdotes. São ricos em privilégios e oportunidades espirituais, e comportam-se como aquele rico. Sua vestimenta de púrpura régia representa sua posição favorecida, e o linho branco significa que eles se consideram justos.
Essa orgulhosa classe do rico encara as pessoas pobres, comuns, com total desprezo, chamando-as de ‛am ha·’á·rets, ou povo da terra. O mendigo Lázaro representa, pois, essas pessoas, às quais os líderes religiosos negam o devido nutrimento e privilégios espirituais. Portanto, assim como o Lázaro cheio de úlceras, as pessoas comuns são menosprezadas como espiritualmente doentes e dignas de se associarem apenas com cães. No entanto, os da classe de Lázaro têm fome e sede de alimento espiritual e, por isso, se encontram junto ao portão, procurando receber quaisquer míseras migalhas de alimento espiritual que porventura caiam da mesa do rico.
Jesus passa agora a descrever mudanças na condição do rico e de Lázaro. Quais são essas mudanças, e o que representam?
O Rico e Lázaro Passam por Uma Mudança
O rico representa os líderes religiosos, favorecidos com privilégios e oportunidades espirituais, e Lázaro, o povo comum, faminto de nutrição espiritual. Jesus continua o seu relato, descrevendo uma mudança dramática nas circunstâncias desses dois homens.
“Ora, no decorrer do tempo”, diz Jesus, “morreu o mendigo e foi carregado pelos anjos para a posição junto ao seio de Abraão. Também o rico morreu e foi enterrado. E no Hades, ele ergueu os olhos, estando em tormentos, e viu Abraão de longe, e Lázaro com ele na posição junto ao seio”.
Visto que o rico e Lázaro não são pessoas literais, mas simbolizam classes de pessoas, logicamente a morte deles também é simbólica. O que simboliza ou representa a morte de cada um deles?
Jesus acabou de indicar uma mudança nas circunstâncias, dizendo que ‘a Lei e os Profetas existiram até João, o Batizador, mas que dali em diante o reino de Deus estava sendo declarado’. Portanto, é com relação à pregação de João e de Jesus Cristo que tanto o rico como Lázaro morrem quanto à sua circunstância ou condição anterior.
Os da humilde e arrependida classe de Lázaro morrem para com a sua anterior condição espiritualmente despojada e entram numa posição de favor divino. Ao passo que antes procuravam junto aos líderes religiosos o pouquinho que caísse da mesa espiritual, agora as verdades das Escrituras, apresentadas por Jesus, suprem as suas necessidades. São assim levados para a posição junto ao seio, ou situação favorecida, do Abraão Maior, Deus.
Por outro lado, os que compõem a classe do rico vêm a estar sob o desfavor divino devido à persistente recusa de aceitarem a mensagem do Reino ensinada por Jesus, sendo ele o messias que a lei Mosaica prefigurava. Dessa forma, morrem para com a sua posição anterior de aparente favor. De fato, fala-se deles como estando em tormento figurativo. Ouça o que diz o rico:
“Pai Abraão, tem misericórdia de mim e manda que Lázaro mergulhe a ponta do seu dedo em água e refresque a minha língua, porque eu estou em angústia neste fogo intenso.” O que atormenta os indivíduos da classe do rico são as mensagens de julgamento ardente de Deus, proclamadas pelos discípulos de Jesus. Querem que os discípulos desistam de declarar essas mensagens, dando-lhes assim certa medida de alívio de seus tormentos.
“Mas Abraão disse: ‘Filho, lembra-te de que recebeste plenamente as tuas boas coisas no curso da tua vida, mas Lázaro, correspondentemente, as coisas prejudiciais. Agora, porém, ele está tendo consolo aqui, mas tu estás em angústia. E, além de todas essas coisas, estabeleceu-se um grande precipício entre nós e vós, de modo que os que querem passar daqui para vós não o podem, nem podem pessoas passar de lá para nós.’”
Quão justo e apropriado é que tal reversão dramática ocorra entre a classe de Lázaro e a do rico! A mudança nas condições ocorre poucos meses depois, no Pentecostes de 33 EC, quando o velho pacto da Lei é substituído pelo novo pacto. Fica então inequivocamente claro que os discípulos, não os fariseus e outros líderes religiosos, são os favorecidos por Deus. O “grande precipício” que separa o simbólico rico dos discípulos de Jesus, portanto, representa o julgamento imutável e justo de Deus.
A seguir, o rico pede ao “pai Abraão”: ‘Envia Lázaro à casa de meu pai, pois eu tenho cinco irmãos.’ Assim, o rico admite que tem uma relação mais íntima com outro pai, que na verdade é Satanás, o Diabo. O rico pede a Lázaro que amenize as mensagens de julgamento de Deus para que seus “cinco irmãos”, seus aliados religiosos, não sejam colocados “neste lugar de tormento”.
“Mas Abraão disse: ‘Eles têm Moisés e os Profetas; que escutem a estes.’” Sim, para que os “cinco irmãos” escapem dos tormentos, tudo o que têm a fazer é acatar os escritos de Moisés e dos Profetas, que identificam a Jesus como o Messias, e daí se tornar discípulos seus. Mas o rico objeta: “Não assim, pai Abraão, mas, se alguém dentre os mortos for ter com eles, arrepender-se-ão.”
Contudo, é dito a ele: “Se não escutam Moisés e os Profetas, tampouco serão persuadidos se alguém se levantar dentre os mortos.” Deus não fornecerá sinais ou milagres especiais para convencer as pessoas. Para granjear o Seu favor, elas devem ler e aplicar as Escrituras. Lucas 16:14-31; João 9:28, 29; Mateus 19:3-9; Gálatas 3:24; Colossenses 2:14; João 8:44.

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2 comentários sobre “A Parábola do Rico e Lázaro, o que significa?

  1. rose

    A biblia usa as palavras hebraicas nefesh e ruahh, respectivamente para alma e espirito, com diferentes sentidos. Mas esses diferentes sentidos variam de acordo com a época e escritor que as utilizou.
    Há religiões que ensinam que a palavra nefesh, quando utilizada na bíblia nunca se refere a algo imaterial e consciente, mas, sim, à própria pessoa ou à vida dessa. Da mesma forma, ruahh não seria algo que abandonaria o corpo da pessoa ao morrer, mas a intenção, inclinação ou mesmo a uma força invisível que manteria a vida do corpo ( alma).
    Acreditam eles que a passagem bíblica que mostra a criação do homem, deixa claro que o corpo produzido por Deus com o pó da terra, não tinha vida até o momento em que Deus soprou-lhes as narinas. Combinando-se o corpo sem vida ao sopro ( ruahh) de Deus, surgiria, então, a alma vivente (nefesh). É bastante interessante a explicação dada, mas, como visto no início, os escritores bíblicos não levavam ao pé da letra o significado dessas palavras.
    Juntamente com nefesh e ruahh, uma outra palavra que causa polêmica é sheol. Algumas traduções a vertem como sepultura, local a que todos os vivos vão quando mortos.
    A palavra sheol é hebraica e está presente no velho testamento, já no novo testamento aparece a palavra grega hades como seu possível equivalente.
    Os gregos acreditavam que as almas dos mortos eram conduzidas ao hades, o mundo subterrâneo, que tinha como soberano um deus que emprestava seu nome a esse lugar.
    Há uma passagem na bíblia que aponta que sheol também recebia a suposta alma de quem morria. Essa passagem se encontra na história de José, quando seu pai imaginava que ele tinha sido morto por uma fera. “É a túnica de meu filho! Um animal selvagem o devorou! José foi despedaçado!”
    Então Jacó rasgou suas vestes, vestiu-se de pano de saco e chorou muitos dias por seu filho.
    Todos os seus filhos e filhas vieram consolá-lo, mas ele recusou ser consolado, dizendo: “Não! Chorando descerei à sepultura(sheol) para junto de meu filho”. E continuou a chorar por ele. Gênesis 37:31-35.
    Note que Jacó sabia que José havia sido devorado por uma fera, logo, ele sabia que o corpo de José não estava em nenhuma sepultura e, sim, no estômago de alguma fera. Portanto, aqui fica evidente que Sheol nem sempre era usada para se referir a sepultura, pois, do contrário, não teria sentido Jacó desejar ir ao Sheol. Ou seja, para Jacó, não obstante seu filho tivesse sido dilacerado por um animal selvagem, Jacó pensava que poderia encontrá-lo em algum lugar no Sheol, pois sua nefesh(alma), lá estaria.
    A famosa visita do rei Saul à feiticeira de En Dor é outra demonstração de que os hebreus viam a nefesh como algo além do corpo físico e o Sheol como um lugar além do túmulo. Em 1 Samuel 28:5-25, Saul queria que a bruxa fizesse subir a pessoa do profeta Samuel que já estava morto a algum tempo. Quer dizer a bruxa fez a nefesh de Samuel subir do Sheol, pois o seu corpo físico estava em alguma sepultura no território de Israel e não na gruta de uma bruxa. Se a nefesh fosse somente a própria pessoa, enquanto viva, não teria sentido de o rei Saul fazer aquele pedido a bruxa. Além disso, a bruxa descreveu um vulto que se encaixava perfeitamente a pessoa do falecido Samuel, por isso, Saul caiu por terra diante da exata descrição feita pela feiticeira do profeta.
    Religiões como Testemunhas de Jeová e Adventistas dizem que ali foi um demônio que se fez passar por Samuel, contudo a própria bíblia fique silente quanto a isso. Outros dizem que Saul estava possuído por espíritos ( demônios). Contudo, se for de fato verdade isso, Saul não poderia ser responsabilizado por seus atos, porquanto se encontrava sob domínio de um espírito. E mais, o escritor bíblico de 1 Samuel, nos versículos 15 a 20, diz que foi Samuel que estava falando, ali não diz que foi um suposto Samuel. Não tem sentido pensar que Saul estava sendo enganado por um demônio, pois se assim fosse, o demônio estaria tentando enganar um outro demônio que estava no corpo de Saul. Saul acreditava nitidamente que aquele a quem falava era Samuel. Perceba que Saul pediu que subisse Samuel, e o próprio Samuel fala como que se tivesse realmente subido de algum lugar. “Por que me inquietaste fazendo subir?” Pergunte-se: subir de onde? Da sepultura? Viu! perde o sentido pensar que Samuel subiria da sepultura. A sepultura de Samuel não estava na casa ou gruta da bruxa de En Dor. Samuel subiu do Sheol que para a grande massa de hebreus era também um lugar a que as almas dos mortos se dirigiam.
    No novo testamento, em 1 Pedro 3:18,19, é dito que Jesus em espírito desceu ao hades (infernus), a famosa mansão dos mortos da igreja católica, e estando lá, pregou aos espíritos em prisão. O que demostra mais uma vez que os judeus não só acreditavam em vida pós morte, bem como criam que o sheol era igual ao hades dos gregos no sentido de que esse lugar também recebia a alma dos que morriam. Esse texto é bastante polêmico e já gerou diversas interpretações por parte daqueles que não apoiam a vida pós morte. Creio que isso se deu sem muito sucesso.
    A tão bem conhecida parábola, contada por Jesus, sobre o rico e Lázaro, também não deixa dúvidas quanto à crença dos judeus no mundo pós vida. Muitos explicam que essa parábola não deve ser entendida literalmente, daí apontam diversos elementos que a descaracterizariam como sendo real. Porém, novamente seus argumentos se tornam suficientes e até mesmo satisfatórios se pensarmos que só os povos ditos pagãos criam na vida depois da morte.
    Então vejamos, Jesus falava, em sua maioria, a pessoas sem nenhuma instrução, eram raras as exceções. Havia entre as fileiras de seguidores de Jesus pescadores, prostitutas, trabalhadores do campo e carpinteiros-pedreiros. Por isso mesmo, antes de ensiná-las, tinha que ilustrar e mesmo assim muitos ainda não entendiam o que era dito. Por exemplo, Jesus diversas vezes lhes falou de sua ressurreição, após o terceiro dia, e ainda assim, quando ele ressuscitou muitos não compreenderam isso. Elas eram pessoas simples, era natural isso acontecer.
    Quando ilustrava, portanto, Jesus buscava elementos conhecidos da maioria dos seus ouvintes, pois do contrário, jamais entenderiam o que era falado. Isso é observado em todas as suas ilustrações ou parábolas. Especificamente, na parábola do rico e Lázaro, temos de olhar o que queria Jesus passar ao contá-la. Em outras palavras, temos que ver o contexto, em Lucas 16:1-30. Todo o capítulo fala de riquezas, de quem é rico e de quem é pobre, da riqueza ostentada pelos fariseus, da dificuldade em se obedecer a dois senhores. Fala também do cumprimento da lei e dos profetas e assim por diante. Em seguida, começa Jesus a contar-lhe a parábola do pobre Lázaro e do rico. Ou seja, ele está tentando ligar as situações apontadas anteriormente a parábola. Perceba como a parábola retrata exatamente dois ambientes em um mesmo local, havendo apenas um abismo que separa um ambiente do outro.
    Em nenhum momento, é dito que o ambiente em que se encontra o pobre Lázaro, seja o céu. Fala-se, sim, do hades e seus dois compartimentos. Um que abrigaria pessoas ditas cumpridoras da lei e dos profetas e o outro reservado para os não cumpridores.
    A menção de pai Abraão não tem nada a ver com Deus como muitos tentam explicar. Dizem que Abraão na ilustração estaria representando Deus. O pobre, as pessoas desprezadas pelos fariseus e escribas, já o rico seria os próprios fariseus que se orgulhavam da posição que ocupavam. A morte de ambos, uma mudança de condição.
    Devemos nos lembrar de que os fariseus em muitas ocasiões se retrataram como sendo filhos de Abraão. O que derruba a ideia de que Abraão na parábola seria Deus. Para os judeus, Abraão e tantos outros servos de Deus quando morreram foram ao compartimento do hades, onde ficavam os justos.
    As pessoas daquela época e até algumas da nossa acreditavam que os pobres sempre eram favorecidos por Deus quando morriam, ao contrário dos ricos. Essa não é a primeira vez que Jesus indica que as riquezas podem afastar o homem de Deus. Em uma ocasião, ele foi interpelado por certo jovem muito rico que perguntou-lhe o que deveria fazer para herdar o reino dos céus. Ao final, Jesus conclui que é muito difícil de o rico entrar no reino de Deus. O que também era natural pensar assim, já que quem o seguia não eram os ricos, mas, sim, os pobres em sua grande massa. O que Jesus poderia oferecer a um rico possuidor de tantos bens e usufruidor de tantos prazeres? Quase nada! Mas, aos pobres coitados, que sequer tinham o pão para se alimentar, as promessas de Jesus eram verdadeiras maravilhas aos seus ouvidos. Por exemplo, o que poderia Jesus oferecer a Pilatos, quando este perguntou-lhe o que era a verdade. Jesus, calou-se simplesmente! Aquela seria uma ótima ocasião não de se provar sua inocência, mas de convencer um pagão das verdades de Deus.
    Ainda, falando da crença do pós morte, vamos nos recordar, por exemplo, da ocasião em que Jesus apareceu de repente aos seus discípulos, depois de ressuscitado e da que ele andou sobre as águas do mar da galileia. Nesses dois momentos distintos, os discípulos imaginavam que Jesus fosse um fantasma ( espírito). Embora não tenha sido usado a palavra nefesh nessas duas situações, o que chama atenção é o fato de que pessoas do círculo íntimo de Jesus gozarem do mesmo pensamento dos outros povos. Eles acreditavam que os mortos poderiam se levantar de seus túmulos, nada diferente da maneira de pensar dos pagãos. Notem que em momento algum, eles são corrigidos por Jesus para mudar sua forma de pensar, muito pelo contrário. Jesus, na ocasião da entrada com as portas fechadas, simplesmente, tenta convencê-los de que ele não é uma alma penada ou fantasma, mandando inclusive que toquem em seu corpo, já que um espirito não teria carne e nem ossos. Em outras palavras, Jesus reforça a ideia de que fantasmas ou almas penadas existem, somente eles não teriam como serem tocados por não possuírem carne e ossos.” Enquanto falavam sobre isso, o próprio Jesus apresentou-se entre eles e lhes disse: “Paz seja com vocês! “Eles ficaram assustados e com medo, pensando que estavam vendo um espírito”. Lucas 24:36-37 e Marcos 6:49, 50: ” Quando o viram andando sobre o mar, pensaram que fosse um fantasma. Então gritaram, pois todos o tinham visto e ficaram aterrorizados.”
    Temos ainda uma passagem em Atos dos Apóstolos, ali Paulo se declara como fariseu e como tal compartilhador da crença de espiritos, anjos e ressurreição dos mortos. Atos 23:7, 8 reforça os argumentos acima:”Então Paulo, sabendo que alguns deles eram saduceus e os outros fariseus, bradou no Sinédrio: “Irmãos, sou fariseu, filho de fariseu. Estou sendo julgado por causa da minha esperança na ressurreição dos mortos!”
    Dizendo isso, surgiu uma violenta discussão entre os fariseus e os saduceus, e a assembleia ficou dividida.
    (Os saduceus dizem que não há ressurreição nem anjos, nem espíritos, mas os fariseus admitem todas essas coisas.)
    Alguns poderiam argumentar: mas anjos são espiritos! Certamente que sim, anjos são espíritos, contudo os termos anjo e espirito foram usados no contexto para indicar coisas diferentes uma da outra.
    A prova da crença dos judeus no pós morte não fica restrito apenas à bíblia, não. O livro apócrifo de Enoque, os rolos de Qurãn e outros mostram essa crença. Podemos ainda citar fora do contexto bíblico “As antiguidades e guerras judaicas e discurso aos gregos sobre o hades” de Flávio Josefo. Creio que não se faz necessário me aprofundar sobre a pessoa desse historiador judeu bastante conhecido no meio religioso (católico e protestante). Há certos estudiosos que dizem que esses livros foram adulterados em algumas passagens por escribas cristãos. Mas essas adulterações não alteraram sobremaneira todo o contexto dos escritos de Josefo, sendo, até mesmo, possível, localizar e retirar essas inserções ou interpolações do texto original. Logo abaixo deixo parte da obra, discurso aos gregos.
    “ Agora, quanto ao Hades, onde as almas dos justos e injustos ficam detidas, é necessário falar dele. Hades é um lugar no mundo não regularmente concluído: uma região subterrânea, onde a luz deste mundo não brilha. Devido a esta circunstância, de que nesta região a luz não brilha, ela não pode estar [brilhando], mas deve permanecer nela a escuridão perpétua. Esta região considera-se como um local de custódia para as almas; em que os anjos são nomeados como guardiões para elas: que lhes distribuem castigos temporários, de acordo com o comportamento e atitudes de cada um.
    Nesta região há um determinado lugar isolado, como um lago de fogo inextinguível. Nele supomos que ninguém até agora tenha sido lançado: mas está preparado para um dia já determinado por Deus: em que uma sentença justa será merecidamente lançada sobre todos os homens, quando os injustos, e aqueles que foram desobedientes a Deus, e deram honra a determinados ídolos como têm sido feito em vão pelas mãos dos homens, como se fosse ao próprio Deus, serão destinados a este castigo eterno, como tendo sido as causas da corrupção, ao passo que os justos obterão uma incorruptibilidade e nunca perderão o Reino. Estes também se encontram confinados no Hades agora, mas não no mesmo lugar em que os injustos estão confinados.
    3. Porque há uma só descida para esta região, em cujo portão acreditamos estar postado um arcanjo, com uma hoste: quando aqueles passam por tal portão são conduzidos para baixo pelos anjos nomeados sobre as almas, mas não seguem o mesmo caminho, pois os justos são guiados para a direita, e são conduzidos com hinos, cantados pelos anjos nomeados sobre esse lugar; até uma região de luz, em que o justo tem habitado desde o início do mundo. Não são constrangidos pela necessidade; mas sempre desfrutam a perspectiva das coisas boas que eles vêem, e alegria na expectativa desses novos contentamentos que serão peculiares para cada um deles e aproveitam essas coisas ainda mais do que temos aqui. Com eles não há lugar de labuta; sem calor ardente; nenhum incômodo por frio, nem quaisquer abrolhos existem lá: mas o semblante dos pais e dos justos é o que eles vêem sempre sorrindo sobre eles: enquanto esperam por aquele descanso e a nova vida eterna no céu, que é o que vem após esta região. Este é o lugar que chamamos o seio de Abraão.”
    Assim, mencionar Eclesiastes e Salmos como prova de que os judeus não acreditavam em vida após a morte, não reflete a verdade.

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  2. Excelente explicação da parábola sobre o Rico e Lazaro! Muitos veem de forma literal e confundem o entendimento, fazendo assim com que muitos tenham crenças erradas sobre os ensinamentos bíblicos, achei bastante interessante dar se a entender as pessoas que acham que só devem tomar posição a favor de Deus, se este lhes provar, mostrando de alguma forma a sua existência e esta Parábola deixou claro, que isto não irá acontecer, Pois, cada um de nós é que temos que ser gratos, por tudo o que o nosso criador nos deu e assim nos tornarmos cônscios de nossa necessidade espiritual.

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