A “mulher apanhada em adultério” – essa história está mesmo na Bíblia?

“Quem não tiver pecado, que atire a primeira pedra.” Você talvez já tenha ouvido muitas vezes essa famosa frase, atribuída a Jesus Cristo. Alguns a citam para justificar alguma falha pessoal ou mesmo um pecado biblicamente grave. Muitos acreditam sinceramente que a passagem em que essa frase foi feita se encontra no texto sagrado. Mas, será que se encontra mesmo na Bíblia?

Ausência da história nos manuscritos mais antigos e mais reconhecidos

A famosa frase reputada a Cristo se encontra na passagem de João 7:53 a 8:11. A nota de rodapé da Tradução do Novo Mundo explica que esses doze versículos não se encontram no Manuscrito Sinaítico e no Manuscrito Vaticano 1209 (ambos do quarto século). São omitidos pela maioria das versões antigas.[1] A passagem é conhecida como Pericope Adulterae, expressão latina para “Perícope [seção ou passagem] da Adúltera”.[2] Trata-se, evidentemente, de uma interpolação, ou acréscimo – uma passagem espúria. A evidência sobrepujante disso se encontra nas contradições apresentadas na própria passagem em relação ao texto bíblico inspirado.

Desarmonia com o restante das Escrituras

Em primeiro lugar, tal passagem apresenta Jesus como estando ‘sentado’, até mesmo ‘se abaixando’, diante dos “anciãos” de Israel que se chegaram a ele com a mulher adúltera. (João 8:2, 6, 8, 9) Tal postura de Jesus se chocaria frontalmente com a Lei de Deus dada à nação de Israel. Um dos mandamentos dessa lei prescrevia: “Deves levantar-te diante do cabelo grisalho e tens de mostrar consideração para com a pessoa dum homem idoso, e tens de ter temor de teu Deus. Eu sou Jeová.” (Levítico 19:32) Visto que Jesus veio cumprir a Lei, permitindo assim que ela o identificasse como o prometido Messias, ele não poderia violá-la.  – Mateus 5:17; Gálatas 3:19, 22-25.

Ademais, a famosa frase – ‘que aquele de vós que estiver sem pecado que atire a primeira pedra’ – também mostraria desrespeito pela Lei e promoveria o seu desacato. Afinal, era a própria Lei que exigia tal punição tanto para o adúltero como para a adúltera. (Levítico 20:10; Deuteronômio 22:22) Em todas as suas declarações, Cristo mostrou elevado respeito pela Lei divina vigente naquela época, várias vezes citando partes dela e também condenando os que não a cumpriam.  – Mateus 4:4, 7, 10; 5:19; 15:3-9; 19:17.

Nessa mesma linha de raciocínio, a frase que João 8:10 reputa como tendo sido dita por Jesus à mulher adúltera – “não te condenou ninguém?” – vai diametralmente contra o que o próprio Jesus Cristo disse em João 5:45: “Há um que vos acusa, Moisés.” Mostrando que endossava o que Moisés escreveu – que incluía a Lei – Jesus prosseguiu: “De fato, se acreditásseis em Moisés, teríeis acreditado em mim, porque este escreveu a meu respeito. Mas, se não acreditais nos escritos desse, como acreditareis nas minhas declarações?” (João 5:46, 47) Uma vez que Jesus reconhecia que a Lei dada por Jeová mediante Moisés condenava pecados graves como o adultério – e concordava com tal Lei –, como poderia ele ter dito à adúltera: “Não te condenou ninguém?”

Outro equívoco cometido por certos religiosos é considerar a mulher adúltera desse relato como sendo Maria Madalena. Outros afirmam que a prostituta mencionada em Lucas 7:36-50 era Maria Madalena. Daí a expressão “Madalena arrependida”. No entanto, nada disso é verdade. O que a Bíblia relata a respeito da vida passada de Maria Madalena é que dela “saíram sete demônios”, evidentemente expulsos por Jesus Cristo.  – Lucas 8:2.

Devido à flagrante clareza da falsidade da passagem de João 7:53-8:11, tanto pela evidência documental externa como pela evidência interna – diversas traduções da Bíblia a colocam entre colchetes e explicam em notas remissivas que tal relato não faz parte da inspirada Palavra de Deus. (Veja Almeida da IBB, ALA, BLH, NTLH.) A “Perícope [passagem] da Adúltera” é, na realidade, uma passagem adulterada, não condizente com as Escrituras inspiradas, acrescentada séculos depois da escrita original do Evangelho de João, possivelmente para servir de desculpa para pecados deliberados.

Notas de rodapé:

[1] Veja a obra Estudo Perspicaz das Escrituras, (publicada pelas Testemunhas de Jeová),

volume 2, pág. 576..

[2] Veja o artigo “Ausência do PA confirma a superioridade erudita da Tradução do Novo Mundo”, no blog traducaodonovomundodefendida.blogspot.com, acessando o link:

http://traducaodonovomundodefendida.wordpress.com/2011/11/04/ausencia-do-pa-confirma-a-superioridade-erudita-da-traducao-do-novo-mundo/

Siglas das traduções usadas:

ALA: Almeida Revista e Atualizada.

BLH: Bíblia na Linguagem de Hoje.

IBB: Almeida da Imprensa Bíblica Brasileira.

NTLH: Nova Tradução na Linguagem de Hoje.

 

fonte: o site http://www.oapologistadaverdade.org

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3 comentários sobre “A “mulher apanhada em adultério” – essa história está mesmo na Bíblia?

  1. RAFAEL

    Hoje eu mandei uma mensagem no face pro Apologista da Verdade (você deve conhecê-lo), pedindo mais estudos sobre essa passagem. O texto que li aqui parece ser da TNM Defendida.

    Eu fiquei com uma dúvida: a passagem da “mulher adúltera” é espúrio ou simplesmente NÃO SE TEM CERTEZA da canonicidade por não aparecer nos MS mais antigos e confiáveis?

    Ontem eu estava conversando com um irmão que veio aqui em casa e falávamos sobre isso. Daí ele me disse: “Rafa, você não pode afirmar pra alguém ‘ESSE TEXTO É ESPÚRIO’. o que podemos dizer, caso alguém nos pergunte sobre essa passagem é simplesmente que ‘NÃO SE TEM CERTEZA DE SUA CANONICIDADE’ e não AFIRMAR que ele é espúrio, pois poderíamos induzir alguém ao erro por AFIRMAR isso.”

    Eu consegui entender nas publicações da organização que, de fato, esse texto não aparece nos MS mais antigos e confiáveis, e que em quase todas as traduções ele está entre colchetes e com a nota ao pé da página explicando sua ausência nos MS.

    Portanto, minha dúvida é: essa passagem É ESPÚRIA ou SOMENTE NÃO SE TEM CERTEZA DE SUA CANONICIDADE??

    Obrigado pela resposta, desde já. 🙂

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    1. abibliaeavidaeterna

      Rafael, acredito que tanto o apologista da verdade como o defensor jw irão falar a mesma coisa:”Essa passagem não existe.” ela foi acrescentada muito tempo depois, se não me falhe a memória no séc 17. Existem como o artigo falou muitas coisas erradas na passagem, sem contar que ela não se encaixa com o contexto do relato.

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  2. joão gilberto

    Gostei das observações apresentadas aqui.
    De fato, essa passagem foi acrescentada tardiamente, isso é dito por diversos eruditos em historia antiga e da biblia. O professor André Chevitarese, Bart Ehrman e F.F. Bruce comungam nesse sentido.
    E acrescento mais: A cena é visivelmente falsa. Primeiro porque trouxeram, somente, a mulher adultera, e onde estava o homem adultero? Nada é mencionado. O que tornaria o julgamento inválido. Segundo, em reposta aos acusadores da mulher, Jesus começa a escrever com os dedos no chão. Mas como poderia ele ter escrito alguma coisa, se o piso do templo era de mármore?
    Além disso, muitos desses eruditos afirmam que Jesus e seus discípulos, muito provavelmente, eram analfabetos..
    Alguns tentam derrubar a argumentação de que Jesus era analfabeto, citando a passagem em que ele lê, em uma sinagoga, o rolo do profeta Isaías. Contudo, eles dizem que muitas escavações foram feitas naquela região e não encontrado nenhum vestígios de sinagoga no primeiro século ali.

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